Pegando carona



        O homem pendurado no capô gritou: “para, para”. Os olhos arregalados e fixos na moça do volante. Ela ajeitou o retrovisor. Ele segurou com mais força no capô. O carro seguiu pela avenida.

        Apreciei a cena durante uns 10 segundos, imaginando o motivo da discussão: ele voltou do futebol e ela estava saindo com o carro. Ia pra casa da mãe, não aguentava mais ser largada em casa todo fim-de semana, não se casou pra isso. Ele tentou argumentar, mas teve que continuar a falar com o carro em movimento mesmo, pois ela estava decidida, não sabia bem decidida a fazer o quê, mas decididamente decidida.

Exagero meu, ou dele, pois a história podia ser assim: o homem foi no futebol pra relaxar. Estavam brigando muito naquela semana. Comentou com um amigo do time a situação. O amigo, pra consolar, contou a história de um primo que começou assim e a mulher foi embora, deixou ele com filho e tudo. Era melhor dar um tempo no futebol. Olha o casamento. O pessoal do time ia entender. Pensou bem, era melhor mesmo.


Pegou o ônibus de volta pra casa. No caminho ligou pra esposa e tinha recado no celular.

Apesar da ligação ter chegado cortada, não tinha como não entender: ela foi embora.

Desceu apressado do ônibus e foi correndo em direção à casa. Quando virou a esquina viu a mulher saindo com o carro. Foi pelo meio da rua e pulou no capô do carro. A mulher quase enfartou.


— Você tá louco?

 Louca é você. Já sei, vai pra casa da doida da sua mãe de novo.


Silêncio. Dois segundos depois estavam no começo da história. Se ele não tivesse corrido pra chegar em casa, ela teria saído e ele ia ouvir a versão inteira do recado sem os cortes do celular:


"Querido, vou pra minha mãe, lá tem churrasco, aqui não tem condições de ficar, não consigo mais aguentar esse calor. Não precisa se preocupar, chego antes de você voltar do futebol".





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